DeepSeek R2 atrasado: o que deu errado?

A DeepSeek tentou treinar o modelo R2 nos chips Ascend da Huawei para reduzir dependência da Nvidia, mas problemas técnicos persistentes travaram o projeto. O plano foi refeito: treino em Nvidia, inferência em Ascend. Resultado: adiamento do lançamento (previsto para maio) e um retrato honesto dos desafios de autonomia tecnológica na IA.

O que aconteceu?

O lançamento foi adiado; a expectativa de mercado é que o R2 chegue “nas próximas semanas”. Enquanto isso, vale lembrar: o R1 foi desenvolvido majoritariamente em Nvidia H20, hoje o chip mais popular na China.

A DeepSeek iniciou o treinamento do R2 em hardware Ascend (Huawei).

Segundo pessoas ouvidas pelo Financial Times, falhas recorrentes durante o treino inviabilizaram o cronograma, levando a empresa a migrar o treinamento para GPUs Nvidia e manter Ascend para a inferência.

A pressão de Pequim para priorizar tecnologia nacional encontrou um limite prático: quando “chegou a hora do treino pesado”, estabilidade e maturidade do stack fizeram diferença.

Por dentro do gargalo: treino ≠ inferência

Treinar um modelo de IA é como mandar alguém para anos de universidade:

  • exige muito poder computacional de ponta a ponta (meses contínuos, clusters grandes, interconexão rápida);
  • requer ecossistema de software estável (drivers, compiladores, kernels, bibliotecas, otimizadores, depuração);
  • demanda resiliência operacional e financeira (quedas e inconsistências custam tempo e dinheiro).

A inferência, por sua vez, é “usar o diploma”: roda o modelo já treinado para responder perguntas. É pesada, mas menos sensível a arestas no stack.

A conclusão da DeepSeek: Ascend aguenta validação e inferência, mas a maratona do treinamento ainda cobra maturidade adicional.

A geopolítica no data center

  • Os EUA restringiram exportações de chips avançados para a China; em julho, autorizaram a volta das vendas do H20 (com limitações).
  • Pequim incentiva o setor a migrar para Ascend (autonomia estratégica), e ao mesmo tempo questiona o uso de chips dos EUA em projetos críticos.
  • A linha Ascend está na lista negra dos EUA por alegações de uso de tecnologia americana restrita.
  • Na prática, Nvidia segue dominante no treino de modelos de fronteira, enquanto o ecossistema Ascend cresce — com ênfase em inferência.

Por que isso importa

  1. Risco tecnológico vs. prazo de mercado
    Apostar em um stack menos maduro pode estourar cronogramas. Para quem disputa janelas de lançamento, atraso custa mindshare e receita.
  2. Custo total de propriedade (TCO)
    Treino instável gera restarts, retrabalho e subutilização de cluster, elevando o custo por token treinado.
  3. Portabilidade de modelos
    Projetar pipelines para “train em A, infer em B” aumenta resiliência, mas também complexidade operacional (toolchains, formatos, kernels).
  4. Sinal para o ecossistema
    O caso reforça a mensagem: hardware importa, mas software e tooling maduros são o verdadeiro fosso competitivo no treino de LLMs de grande porte.

Lições práticas para líderes técnicos

Antes de mudar do stack Nvidia para outro (ou de adotar um “duplo stack” treino/inferência), responda:

  • Maturidade do ecossistema: drivers, kernels, compiladores, bibliotecas (atenção a regressões sob carga real de treino).
  • Tooling e depuração: profiler, verificadores de precisão, diagnósticos de OOM, kernels customizados.
  • Compatibilidade de frameworks: cobertura de operadores, suporte a paralelismo (tensor/pipeline/data), mixed precision, kernels otimizados.
  • Interconexão e I/O: topologia do cluster, throughput de armazenamento (checkpointing frequente sem gargalo).
  • Planos de rollback: como sair rápido de um stack se o MTBF sob treino longo for inaceitável?
  • Estratégia híbrida: é viável treinar onde é mais estável e servir onde é mais econômico sem duplicar demais o esforço?

Para onde olhar nas próximas semanas

  • Calendário do R2: se chega sem novos adiamentos, é sinal de que o treino em Nvidia estabilizou.
  • Atualizações do stack Ascend: correções de estabilidade sob treino distribuído prolongado serão o termômetro da evolução.
  • Movimentos de pares: ByteDance, Tencent e Alibaba continuam em H20; qualquer mudança ampla de rumo seria um indicador forte.

Conclusão

O adiamento do DeepSeek R2 não é apenas um tropeço operacional: é um estudo de caso sobre trade-offs entre autonomia tecnológica, maturidade de ecossistema e time-to-market. A mensagem é clara: para treinar modelos de ponta, o software conta tanto quanto o silício. Enquanto Ascend avança e conquista espaço em inferência, Nvidia preserva a dianteira onde a estabilidade extrema ainda decide — o treinamento.

Fonte:
https://www.tomshardware.com/tech-industry/artificial-intelligence/deepseek-reportedly-urged-by-chinese-authorities-to-train-new-model-on-huawei-hardware-after-multiple-failures-r2-training-to-switch-back-to-nvidia-hardware-while-ascend-gpus-handle-inference
https://br.investing.com/news/stock-market-news/deepseek-adia-lancamento-de-novo-modelo-de-ia-devido-a-problemas-com-chips-da-huawei-1648171

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